Sou Vascaíno Por Questões Raciais!

Muitas coisas podem ser ditas sobre o Clube de Regatas Vasco da Gama. A melhor definição que tenho para paixão é esta que está no vídeo a seguir, em magnífico poema proferido pelo ator Marcos Palmeira, igualmente vascaíno.

De todas as razões que me fazem estar ligado ao Vasco é o fato de que os negros (e eu faço parte deste grupo) puderam iniciar sua história no mundo do futebol e, por assim dizer, quebrando o preconceito racial, pela primeira vez na História do Esporte Bretão, e isto ocorreu no Clube de Regatas Vasco da Gama, do Rio de Janeiro.

O Clube de Regatas Vasco da Gama foi criado como uma agremiação sociopoliesportiva em 21 de Agosto de 1898 por um grupo de remadores que, inspirados nas celebrações do quarto centenário da descoberta do caminho marítimo para as Índias, ocorrida em 1498, batizaram a nova agremiação com o nome do heroico português que alcançara tal feito, o navegador Vasco da Gama.

A Lei Áurea, que libertou completamente os escravos no Brasil foi promulgada em 13 de Maio de 1888. O Vasco foi criado exatamente 10 anos após este importante marco na História dos Negros Brasileiros. Mas, foi 35 anos depois da Lei Áurea que o Vasco deu um exemplo de civilidade, de democracia e de respeito à Lei que marcou o Brasil de modo definitivo neste setor.

 

Segundo informações do Site do Vasco http://www.vasco.com.br/prehome/

“Ao Vasco foi negado o acesso a AMEA, sob a falsa alegação do clube não ter estádio próprio, porém, o real motivo da negativa veio à tona quando foi apresentada uma proposta indecorosa, na qual o Vasco da Gama seria admitido na referida associação desde que eliminasse do time os 12 jogadores negros, pardos, caixeiros e operários.”

A História:

Em 1923, uma equipe considerada pequena, que acabara de ser promovida a primeira divisão, conquistou o campeonato carioca. Como se isso não bastasse para provocar a ira dos aristocráticos clubes grandes, o campeão era formado por trabalhadores de origem humilde, brancos, negros e mulatos, sem dinheiro nem posição social. Este campeão era o Vasco da Gama.

Naquela época, o racismo imperava no futebol brasileiro. Em 1921, era debatido se jogadores negros deveriam ser convocados para os importantíssimos confrontos entre a Seleção Brasileira e a da Argentina.

Como vingar-se do atrevimento do Vasco? Os clubes aristocratas reuniram-se e deliberaram excluir jogadores humildes, sob a alegação de que praticavam o profissionalismo.

Numa sessão realizada na sede da Liga Metropolitana, Mário Polo, o presidente do Fluminense, apresentou as condições impostas aos chamados pequenos clubes. Estes teriam que apresentar condições materiais e técnicas e eliminar de seus quadros sociais jogadores considerados profissionais, constantes de uma lista que foi lida no momento.

A confusão e as vaias explodiram no recinto ao término da exposição feita por Mário Polo.

Finalmente usou da palavra Barbosa Junior, do S.C. Mackenzie, representante dos chamados pequenos clubes, condenando o racismo dos grandes clubes, uma vez que os jogadores atingidos eram apenas os mulatinhos rosados do Vasco, Bangu, Andaraí e São Cristóvão, sendo o Vasco o mais prejudicado de todos. Os arianos do Fluminense, Botafogo, Flamengo e América nem de leve foram tocados.

Os aplausos calorosos da enorme assistência a Barbosa Junior deixaram a Mário Polo desapontado. A confusão foi de tal ordem que a sessão foi suspensa por dez minutos, durante os quais Mário Polo e Ari Franco, o representante do Bangu, retiraram-se juntos para uma das salas onde conversaram secretamente.

Vendo seus planos irem por água abaixo, os clubes grandes decidiram que se afastariam da Liga Metropolitana, formando uma nova entidade, a Associação Metropolitana de Esportes Atléticos. Estava decretada a cisão do futebol carioca.

Mário Polo e seus comparsas calculavam que os chamados pequenos clubes ingressariam cabisbaixos e humilhados na nova entidade, submetendo-se às suas regras discriminatórias. Bangu e São Cristóvão, que possuíam jogadores atingidos pelo racismo, confirmaram as expectativas dos grandes.

Os demais fatalmente seguiriam essa opção, não fora a atitude desassombrada do presidente vascaíno Dr. José Augusto Prestes e da diretoria do Vasco, enfrentando com galhardia a campanha racista, apoiado pelos outros pequenos clubes.

Um ofício assinado pelo presidente do Vasco foi enviado a Arnaldo Guinle, presidente da AMEA, declarando publicamente que se negava a participar da nova entidade. Esse documento histórico, transcrito abaixo, deu origem a extinção do racismo no futebol.

Eis o teor do ofício:

Rio de Janeiro, 7 de abril de 1924.

Ofício no. 261.

Exmo. Sr. Arnaldo Guinle, M.D. presidente da Associação Metropolitana de Esportes Athleticos.

As resoluções divulgadas hoje pela imprensa, tomadas em reunião de ontem pelos altos poderes da Associação a que V. Exa. tão dignamente preside, colocam o Club de Regatas Vasco da Gama em tal situação de inferioridade que absolutamente não pode ser justificada nem pela deficiência do nosso campo, nem pela simplicidade da nossa sede, nem pela condição modesta de grande número dos nossos associados.

Os privilégios concedidos aos cinco clubes fundadores da AMEA e a forma como será exercido o direito de discussão e voto, e as futuras classificações, obriga-nos a lavrar o nosso protesto contra as citadas resoluções.

Quanto à condição de eliminarmos doze (12) jogadores das nossas equipes, resolve por unanimidade a diretoria do Club de Regatas Vasco da Gama, não a dever aceitar, por não se conformar com o processo por que foi feita a investigação das posições sociais desses nossos consócios, investigações levadas a um tribunal onde não tiveram nem representação nem defesa.

Estamos certos que V. Exa. será o primeiro a reconhecer que seria um ato pouco digno da nossa parte sacrificar ao desejo de filiar-se a AMEA alguns dos que lutaram para que tivéssemos entre outras vitórias a do Campeonato de Futebol da Cidade do Rio de Janeiro de 1923.

São esses doze jogadores jovens quase todos brasileiros no começo de sua carreira, e o ato público que os pode macular nunca será praticado com a solidariedade dos que dirigem a casa que os acolheu nem sob o pavilhão que eles com tanta galhardia cobriram de glórias.

Nestes termos, sentimos ter de comunicar a V. Exa. que desistimos de fazer parte da AMEA.

Queira V. Exa. aceitar os protestos de consideração e estima de quem tem a honra de se subscrever de V. Exa. Att. Obrigado.

Dr. José Augusto Prestes

Presidente

Este ofício do C. R. Vasco da Gama esclarece com precisão os motivos que levaram o hoje poderoso clube de São Januário a afastar-se dos chamados grandes clubes, ficando ao lado dos pequenos. Isso deu ao Vasco a maior popularidade e admiração já alcançada, até aquela época, por clubes desportivos do Rio de Janeiro.

O presidente do Vasco, em declaração pública, afirmou que só voltaria ao seio dos grandes clubes quando o Vasco fosse maior do que todos eles. Para tal coisa conseguir, o Vasco teria que construir um grande estádio.

O reinado dos arianos durou menos de um ano. Em 1925, os grandes clubes, verificando a potencialidade do Vasco, que dentro em pouco apresentaria o maior estádio do Brasil, abandonaram o racismo e remodelaram totalmente o futebol, permitindo a inscrição de jogadores humildes e concedendo ao clube da Cruz de Malta os mesmos direitos dos clubes fundadores da AMEA.

Com a inauguração do estádio de São Januário, em 1927, o Vasco, que em 1924 era o menor dos grandes, transformou-se no maior entre todos os clubes do Brasil.”

 

 

A história do Clube sempre me emociona porque o significado do esporte “futebol”, não é uma questão de quem é o que venceu mais, mas, o de que cada pessoa pode escolher praticar um esporte com dignidade e não por orgulho, mas se houver algum tipo de orgulho que possa se justificar que seja o de defender os pobres, negros, mulatos e trabalhadores. O esporte deve ser praticado com foco na saúde e na disciplina pessoal, como uma forma de preservar o binômio saúde-disciplina para a formação do próprio caráter e a História do Vasco está repleta disto, partindo dos valores humanos que sempre defendeu.

Outros Clubes se autodenominam clubes dos mais desfavorecidos no plano econômico, mas o Vasco fez e faz história neste setor e isto já é parte do histórico posicionamento desta grande agremiação à qual escolhi ser admirador, torcedor e como carioca nativo (nasci na Tijuca, Cidade do Rio de Janeiro), se justifica plenamente na minha vida pessoal; sobretudo, porque eu sou nitidamente um mulato.

O livro O Negro no Futebol Brasileiro”, de Mário Rodrigues Filho (1947), é sem dúvida, em língua portuguesa, o texto fulcral para se iniciar a discussão sobre relações étnico-raciais no futebol brasileiro. Nesta obra prima, Mário Filho brinda-nos com os capítulos: “Raízes do saudosismo; O campo e a pelada; A revolta do preto; A ascensão social do negro; A provação do preto e A vez do preto.”

Mário Filho utiliza tanto o termo “negro” quanto “preto”. Atualmente, o termo “preto” poderia ser interpretado como de cunho racista. Entretanto, à época, não existia este tipo de discussão.

Num mundo onde a escravidão havia encerrado recentemente (apenas 35 anos – 1888 a 1923), criar um time de futebol de pobres, suburbanos, negros e sem nome de família – foi algo fantástico, assim como o foi serem bicampeões de saída (1923-1924)!

Na história deste grande Clube Centenário, há fatos interessantes tais como o fato de que Pelé (Rei do Futebol) é vascaíno (ele mesmo dirá nos vídeos), Roberto Carlos (Rei da MPB) igualmente, além de outros ilustres personagens da sociedade brasileira.

Eu nasci no Rio de Janeiro, nasci exatamente na Rua Conde de Bonfim, um reduto de vascaínos, meu pai é vascaíno, minhas três filhas são vascaínas, minha toalha é vascaína!

Entre outras coisas, se pode verificar no Site do Clube (http://www.vasco.com.br/site/) há 16 modalidades olímpicas de esportes, dentre outras vantagens em ser vascaíno, mas, como eu disse esta que enfoca a questão racial me marca mais que qualquer outra, mesmo porque o esporte não é apenas “vitória, mas, a capacidade de desenvolver o caráter pela compreensão de que a vida é feita de vitórias e derrotas”.

O Vasco teve a ideia de adotar o preto e o branco por que são cores que se encaixam na ideia de uma comunhão de etnias (já que foi o primeiro clube do Brasil a lutar contra preconceitos raciais e sociais). É muito forte o aspecto religioso da cruz, porque a Ordem Militar de Cristo era ao mesmo tempo religiosa e guerreira.

Apesar de ter sido fundado como um “Clube de Regatas”, consagrando-se no  Remo um dos maiores campeões do país, o Vasco da Gama ainda abrange outros esportes nas modalidades feminina como atletismo, vôlei de praia, basquete, futebol de areia, dentre outros, tendo como esporte mais tradicional atualmente, o futebol.

É o único clube carioca bicampeão intercontinental (1953 e 1957) sendo neste último, o primeiro e único clube não europeu a derrotar um campeão da Copa dos Campeões da UEFA desde o 1º título (Real Madrid, 13/06/1956) até a criação da Copa Intercontinental, em 1960, o que ocorreu na final do Torneio Internacional de Paris de 1957 (final entre o campeão europeu e a equipe considerada a melhor da América do Sul), em uma apresentação que encantou o público e a imprensa francesa, prestigiando o Vasco e o futebol brasileiro frente ao público europeu e mundial.

É também o único clube do Rio de Janeiro bicampeão da Copa Libertadores da América, em 1948 (neste caso, reconhecido pela CONMEBOL como o primeiro clube campeão sul-americano, em status equivalente ao da Copa Libertadores da América, tendo o Vasco participado da Supercopa dos Campeões da Libertadores em função do seu título de 1948 ) e em 1998 (Copa Libertadores da América, conquistada no ano do centenário).

Conquistou ainda quatro Campeonatos Brasileiros em 1974, 1989, 1997 e 2000, uma Copa do Brasil em 2011, e vinte e quatro Campeonatos do Estado do Rio de Janeiro e diversos torneios nacionais e internacionais.

Foi o primeiro na história dos clubes esportivos do Brasil a ter elegido um presidente “não branco” (em 1904, numa época em que o racismo era prática comum no esporte, os vascaínos tiveram a honra de conduzir o mulato Cândido José de Araújo ao degrau mais alto do clube).

O Vasco da Gama ainda detém dentre o seu plantel de ídolos, os maiores artilheiros do Campeonato Brasileiro de futebol de todos os tempos, tendo como Roberto Dinamite, com a marca de 190 gols, seguidos de Romário e Edmundo, com 154 e 153 gols respectivamente.

Em 2 de Julho de 2007, o então governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho, sancionou o projeto de lei nº 5.052, que criou o Dia do Vasco, data comemorativa que homenageia a fundação do clube.

Segundo estudo feito pela Pluri Stochos Pesquisas e Licenciamento Esportivo em 2013, o Vasco possui a quarta maior torcida do Brasil, com 5% dos entrevistados. A vantagem do Vasco, de 0,1 ponto percentual, é apenas numérica; como está dentro da margem de erro de 0,68 p.p., Vasco e Palmeiras estão, na verdade, empatados tecnicamente em 4º lugar entre as torcidas. 

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